O agro certamente terá suas Big AgTechs, e os nanosensores prometem integrar o guarda-chuva delas

A tecnologia já está auxiliando na rápida identificação e detecção da Salmonella na cadeia de produção de proteínas animais

Novembro 4, 2021.

Por Renato Seraphim

Nunca na minha vida eu fiquei tão feliz de estar errado como agora. Em 2020, ainda como CEO da Agro100, eu temia muito que a covid-19 prejudicasse o ambiente de inovação e criação de novas empresas no agronegócio. 

No auge da crise, o único pensamento que eu tinha era o de proteger o caixa e o emprego dos meus colaboradores e toda inovação que eu imaginava, tanto para a Agro100 como para a minha visão de investidor em startups, ficou em segundo plano.

Mas eu não estava contando com algo que ficou óbvio logo à frente: que, durante a pandemia iria acontecer a maior aceleração da transformação digital que o mundo já viu. 

As startups, com suas soluções mais ágeis e flexíveis, começaram a ajudar médicos a tratar pacientes que não podiam ir aos consultórios e nem aos hospitais; ajudaram os professores a alcançar os alunos; e as pequenas empresas, como milhares de restaurantes e pequenos empreendedores, a encontrarem um modo de crescer no meio da crise. Foi um ano em que vimos também os programas de condicionamento físico online explodirem e eventos virtuais estrearem com grande público do lado de lá das telas.

A crise e a consolidação

Na História, tivemos vários exemplos de empresas que foram mais ágeis e mais eficientes no mercado e depois foram incorporadas. As Big Techs (Amazon, Apple, Facebook e Google, as Big 4) agora dominam muitas facetas das nossas vidas, mas é inegável que elas não chegaram lá sozinhas. Elas adquiriram centenas de empresas ao longo de décadas para impulsioná-las a se tornarem as gigantes da tecnologia que conhecemos hoje. 

De olho no movimento que pode acontecer lá na frente, tenho dedicado mais e mais tempo para conhecer as tecnologias disruptivas que atualmente são construídas pelas startups e, no agro, me chama a atenção como a manufatura avançada, a robótica, o blockchain e Big Data, além de soluções de crédito, têm crescido de forma exponencial. Essas são tendências no radar do mercado, assim como a nanotecnologia, que tem me fascinado e, agora, ainda mais, com os nanosensores.

A nanotecnologia, os nanosensores e seu potencial competitivo

Hoje, escolhi falar mais da TNS Nano, não por seus produtos específicos, mas por sua tecnologia de nanosensores para o agronegócio que foi uma surpresa para mim. Confesso nunca ter visto nada parecido nas startups que estudei até aqui.

A TNS Nano está inserida no mercado brasileiro de bio e nanotecnologia desde 2009. Ela nasceu e se criou na chamada “Ilha da Inovação”, Florianópolis (SC), e aos poucos conquistou indústrias como a têxtil, de polímeros, tintas e cerâmica, com nano e micropartículas com ação antimicrobiana. 

Em 2018, entrou para o agronegócio, comercializando suas primeiras soluções. Com a nanotecnologia no foco, investiu primeiro no mercado de tratamento de sementes baseado em tecnologias químicas inovadoras. Afinal, é nos primeiros estágios do desenvolvimento das plantas que elas estão mais vulneráveis, como qualquer outro ser vivo, e precisam de uma mão para afastar qualquer risco de contaminação. Nessa época, a TNS Nano também investiu no mercado de fertilizantes, visando o desenvolvimento de plantas mais sadias, que apresentam menor incidência de doenças e perdas na produção.

Em 2021, todas as iniciativas da TNS Nano voltadas para o mercado agro, foram estruturadas em uma  nova unidade de negócio, a Revella Tecnologia, spin-off que consolida o conhecimento e estrutura já existentes para expandir e inovar com foco exclusivo no mercado do agronegócio.

Nanotecnologia para a cadeia de produção de proteínas

A indústria de proteína, seja animal ou vegetal, ainda está muito suscetível à contaminação por bactérias, como as do gênero Salmonella, e esse patógeno é responsável por inúmeros sintomas de indisposição para o ser humano e até mesmo mortalidade, se não tratada a tempo. 

Por isso, diariamente, milhares de análises de presença e ausência de Salmonella são realizadas em todo o mundo, seja para controle ambiental de granjas, para controle de produto acabado ou até mesmo para controle de recepção de matéria-prima, como leite e soja. 

Usando um nanobiosensor, o que a Revella Tecnologia está propondo é a rápida identificação e detecção da Salmonella. A startup faz isso com o Revella Test, que combina nanopartículas de ouro a moléculas de DNA. Essas moléculas, fitas simples de DNA, atuam como ligantes entre as paredes celulares da Salmonella e as nanopartículas, de forma bastante específica, como se fossem anticorpos, segundo informações da própria startup. 

Teste de detecção da Salmonella

Como diferenciais dessa tecnologia, eu vejo:

  • Detecção visível do resultado;
  • Resultado a partir de 12h ou menos;
  • Agilidade e baixo custo para identificação do patógeno; 
  • Redução dos grandes volumes de descarte de material biológico gerados no processo usual;
  • Aumento da produtividade nos laboratórios;
  • Redução no custo das análises.

Muitos sensores e aparelhos que nos ajudam na tomada de decisões já estão sendo utilizados no campo e, em particular, na agricultura de precisão com destaque para os:

  • Os sensores ópticos, como os espectrômetros (utilizados para medir as características do solo, à exemplo da umidade, compactação etc).
  • Os sensores térmicos, que nos ajudam na identificação da radiação dos raios infravermelhos, para estimar produtividade e desenvolvimento vegetativo.
  • Os sensores elétricos, que nos permitem analisar as propriedades físicas e químicas do solo por meio da condutividade elétrica, medindo a umidade do solo, quantidade de íons etc.

Para quem inova estar atento aos “sinais fracos” do mercado é fundamental e, se a nanotecnologia ainda engatinha no Brasil, os nanosensores estão em fase de gestação.

E não acaba por aqui! Como já exploramos em outro artigo, o potencial da nanotecnologia não está restrito aos nanosensores. No caso da Revella, alguns exemplos são o Folium e Arbo, produtos à base de nanopartículas de cobre e prata que aumentam significativamente o crescimento das plantas, com ganhos de produtividade de mais de 30%, e ao mesmo tempo, apoiam a proteção ambiental com sustentabilidade.

Ver a Revella explorando todo esse potencial, com linhas de produtos que trazem os benefícios necessários à adoção de uma nova tecnologia disruptiva, fortalece a minha percepção de que a grande inovação no agronegócio virá das agtechs, em breve Big Techs. E ficar de olho nesse movimento é fundamental para nós, profissionais, e para as grandes empresas que querem ser líderes no setor, montarmos também o nosso guarda-chuva.

Renato Seraphim, 50 anos, é engenheiro agrônomo graduado pela Unesp de Jaboticabal (SP) e pós graduado em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

No agronegócio, fez especializações junto ao Programa de Estudos dos Sistemas Agroindustriais (Pensa-USP), à Fundação Dom Cabral (FDC), Insead Business School e Perdue University. Com 25 anos de experiência no setor, tem passagem por empresas de defensivos agrícolas e biotecnologia. 

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem necessariamente a visão do Agtech Innovation News.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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