Outubro 26, 2023
Diferentes iniciativas (e ferramentas) são utilizadas no agronegócio em busca de produzir mais com menor impacto ambiental (Foto: CNA/ Wenderson Araujo)
Por Gislaine Pereira
Com a evolução da agricultura tropical — e o papel do Brasil para suprir a demanda mundial por alimentos —, é impossível não falar sobre sustentabilidade na cadeia agrícola brasileira. Conhecer nossa “carbon footprint” (ou pegada de carbono) no agro é cada vez mais relevante para a redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera.
A resposta para isso está mais próxima da lavoura do que se imagina. O desafio do agro para 2030 é atingir 30 milhões de hectares em áreas dedicadas aos sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta. Mas, por quê? A resposta se resume a duas palavras: agricultura regenerativa.
Embora esse termo esteja em alta nos dias atuais, não é um conceito recente, existe desde 1980 e foi definido pelo notório Robert Rodale, que buscava entender mais sobre a produção agrícola aliada à recuperação dos solos nos EUA.
No Brasil, não é diferente. Desde a década de 1970, os sistemas de produção regenerativos têm sido precursores da ciclagem de carbono no solo. O sistema de plantio direto não surgiu por acaso: ele tem como premissa o não-revolvimento dos solos, a diversificação de culturas e a proteção da superfície do solo com a palhada.
Os sistemas integrados, como o lavoura-pecuária-floresta, lavoura-floresta, pecuária-floresta e lavoura-pecuária, são a vitrine brasileira para o agro mundial sustentável, e aliados à diversificação dos cultivos, eles garantem o sequestro de carbono.
A evolução desses sistemas brasileiros é impactante: saímos de um patamar de 2 milhões de hectares de área plantada em 2005 para 17,4 milhões de hectares de ILPF atualmente.
Um dos principais benefícios desta prática é a redução das emissões de carbono equivalente e a ciclagem desses nutrientes nos sistemas produtivos.
Pesquisas evidenciam que o conceito de produzir mais com menos é realidade no agro brasileiro, aliado ao entendimento de que a transformação da nossa agricultura, nos últimos 40 anos, é motivo de orgulho.
A produção de grãos na década de 1970 era em média 40 milhões de toneladas para uma área de valor semelhante (1:1). Atualmente, a produção saiu do patamar de 300 milhões de toneladas de grãos com um aumento de área muito menor: a produtividade aumentou em 500% enquanto as áreas aumentaram na escala de apenas 50%.
Isto é a consolidação do termo “agricultura sustentável”, aquela em que existe a sustentabilidade da cadeia agrícola para produção de mais grãos, fibras e proteínas em mesma unidade de área.
Essa revolução agrícola brasileira, aliada ao uso consciente de insumos e preservação do solo, tem resultado no valor agregado do nosso produto final, resultando também na geração de créditos de carbono por emissões evitadas. E na busca de potencializar a produtividade agrícola dos cultivos brasileiros, a tecnologia é a base fundamental desse aumento.
Além da expansão da agricultura de conservação para áreas antes improdutivas, como de pastagens degradadas, o uso da tecnologia cada vez mais ajudará na redução das emissões de GEE, contribuindo para a ciclagem e diminuindo a pegada de carbono.
Por quê? A resposta é relativamente simples: com as soluções tecnológicas inteligentes, é possível reduzir a compactação do solo, racionalizar insumos agrícolas em escala de semente a semente e também por meio da aplicação de fertilizantes em taxas variáveis.
A agricultura de precisão vem como fator crucial para a redução das emissões de carbono. Esse conjunto de técnicas favorecerá a redução das emissões de gases como N2O (óxido nitroso) a partir de práticas como tráfego controlado que contribui para a diminuição da compactação do solo e amassamento nas lavouras agrícolas.
Analisando todo o cenário, temos à nossa frente tecnologias necessárias para continuar cada vez mais expandindo nossa produção de alimentos — munidos de ferramentas regenerativas, que podem contribuir com nossa missão de alimentar o mundo. O que devemos ter em mente é: o nosso futuro é verde e desempenhamos um papel fundamental nessa transformação.
Referências
Pereira, Gislaine, S. et. al. Soil nitrous oxide emissions after the introduction of integrated cropping systems in subtropical condition. Agriculture, Ecosystems & Environment. https://doi.org/10.1016/j.agee.2021.107684
Rodrigues, Renato, R. Desafio da ILPF para 2030. Disponível em: https://conecta.deere.com.br/noticias/sustentabilidade/desafio-da-ilpf-para-2030.
Pereira, Gislaine, S. Melhore a qualidade do solo. Disponível em: https://conecta.deere.com.br/noticias/agricultura/melhore-a-qualidade-do-solo
Ritter, Emanuel; Pereira, Gislaine. Mercado de Carbono: Oportunidade não explorada. Disponível: https://conecta.deere.com.br/noticias/sustentabilidade/mercado-de-creditos-de-carbono-oportunidade-ainda-nao-explorada
Gislaine Pereira é especialista em Geração de Valor da John Deere.Graduada em Engenharia Agrícola pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), possui mestrado em Agronomia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), além de ser Especialista em Solos e Nutrição de Plantas e Doutoranda em Engenharia de Sistemas Agrícolas (Esalq-USP).