Gestão de riscos: o olhar além da lavoura que redefine o agronegócio

Em um cenário de extremos climáticos e mudanças constantes, integrar toda a cadeia à gestão de riscos deixa de ser diferencial e passa a ser estratégia que sustenta o negócio

Junho 18, 2026

Por Alfredo Lalia Neto

Em um contexto de maior ocorrência de eventos climáticos extremos e de crescente complexidade operacional, a gestão de riscos no agronegócio passa a demandar uma abordagem mais ampla e integrada. Tradicionalmente concentrado na produção, esse olhar continua essencial, mas se expande para considerar também as vulnerabilidades e impactos ao longo de toda a cadeia produtiva.

O que acontece na lavoura passa a ser o ponto de partida de uma gestão que precisa considerar toda a operação, uma vez que os impactos deixaram de se limitar à colheita. Silos, armazéns, centros de distribuição, máquinas, frotas, infraestrutura logística e instalações também estão expostos e sujeitos aos riscos – sejam eles climáticos, operacionais, patrimoniais ou financeiros. 

Produzir bem continua sendo essencial. Mas, hoje, a sustentabilidade do agronegócio passa, cada vez mais, pela capacidade de identificar, priorizar e gerenciar riscos ao longo de toda a cadeia — e não apenas dentro da porteira.

Na prática, o que esse cenário já está custando ao agronegócio?

O agronegócio brasileiro construiu, ao longo do tempo, uma trajetória marcada por resiliência, escala e capacidade de adaptação. Mesmo diante de ciclos econômicos adversos, mudanças regulatórias e pressões ambientais crescentes, o setor segue exercendo um papel central no desenvolvimento do país e no abastecimento global de alimentos. 

Essa força produtiva nasce no campo, evolui com tecnologia, ganha eficiência por meio da gestão e se consolida em regiões que se tornaram polos de produtividade, reforçando o protagonismo do Brasil como um dos pilares da segurança alimentar mundial.

Esse desempenho, no entanto, convive com desafios estruturais cada vez mais complexos. A elevação dos custos de insumos, um ambiente financeiro mais restritivo e, sobretudo, a intensificação dos eventos climáticos extremos ampliam os riscos enfrentados pelo setor, que se tornam mais frequentes, severos e interdependentes. O paradoxo é evidente: enquanto a produção avança, a previsibilidade diminui. Nesse cenário, a gestão de riscos passa a ocupar posição central na estratégia dos agentes produtivos da cadeia do agronegócio.

Eventos climáticos e perdas crescentes

Relatórios recentes ajudam a dimensionar a magnitude desse desafio. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), as perdas acumuladas na agricultura mundial entre 1991 e 2023 somam aproximadamente US$ 3,26 trilhões — uma média anual de US$ 99 bilhões, equivalente a cerca de 4% do PIB agrícola global. O estudo evidencia que secas, enchentes e outros eventos extremos vêm provocando impactos cada vez mais relevantes sobre a produção de alimentos e a economia rural. 

No Brasil, levantamento da Confederação Nacional de Municípios indica que R$ 287 bilhões em prejuízos à agropecuária entre 2013 e 2022, afetando cerca de 6,8 milhões de hectares de lavouras. Esse volume corresponde a cerca de 14% da área total de soja plantada no país atualmente, uma extensão superior à do Estado da Paraíba e próxima à de países como a Irlanda. 

As secas concentram a maior parte dessas perdas. No Rio Grande do Sul, estima-se que uma em cada quatro safras de soja seja comprometida por estiagens, evidenciando a vulnerabilidade estrutural de sistemas produtivos fortemente dependentes das condições climáticas.

Especialização e planos estruturados

Diante desse contexto, a gestão de riscos passa a ocupar um papel estratégico. Cada atividade dentro do agronegócio — agricultura, pecuária, armazenagem, agroindústria, cooperativas e seus associados — apresenta riscos específicos e necessidades próprias. Além disso, negócios de diferentes portes enfrentam desafios distintos, seja pela escala de operação, seja pela capacidade de absorver perdas e lidar com volatilidades.

Nesse contexto, contar com especialistas que conheçam profundamente as particularidades do agronegócio é fundamental para identificar vulnerabilidades, priorizar riscos e estruturar um Plano de Seguros e um Plano de Gestão de Riscos alinhados à realidade de cada operação. Esses instrumentos precisam ir além da contratação de apólices, incorporando análises de exposição, prevenção, mitigação e governança, de forma integrada à estratégia do negócio e à sua sustentabilidade ao longo do tempo.

Conhecimento compartilhado

Mais do que uma resposta pontual aos desafios atuais, os investimentos em inovação já se consolidam como uma tendência estrutural do agronegócio. O setor vem ampliando seu repertório técnico ao integrar conhecimentos de áreas como ciência de dados, meteorologia, engenharia, finanças e seguros para o desenvolvimento de ferramentas capazes de elevar a previsibilidade, a eficiência e o controle das operações. Essa convergência de expertises amplia a capacidade de antecipar cenários, qualificar decisões e sustentar ganhos de produtividade de forma consistente.

Tecnologias como monitoramento climático avançado, sensoriamento remoto, inteligência artificial, analytics e modelos preditivos passaram a desempenhar papel relevante não apenas no planejamento agrícola, mas também na gestão estratégica dos riscos. Ao transformar dados em decisões, essas soluções contribuem para reduzir incertezas, mitigar impactos e apoiar estratégias mais robustas de proteção e continuidade dos negócios, reforçando a sustentabilidade econômica das operações.

Um esforço coletivo pela sustentabilidade dos negócios

Em um contexto de eventos climáticos cada vez mais severos, a sustentabilidade passa a ser compreendida, sobretudo, como a capacidade de manter negócios perenes, preparados e produtivos ao longo do tempo. Sustentar o agronegócio significa garantir sua continuidade, sua capacidade de investimento e sua relevância econômica, mesmo diante da volatilidade crescente.

Nesse cenário, a Sompo apoia produtores e empresas do setor na estruturação de soluções de gestão e transferência de riscos que contribuem para proteger investimentos, preservar a renda e assegurar a continuidade das operações. Ao mesmo tempo, mantém participação ativa no ecossistema de inovação, promovendo a integração com hubs, startups e iniciativas de inovação aberta voltadas à mitigação de riscos climáticos e operacionais.

A perenidade do agronegócio depende de um movimento coletivo. Produtores, empresas, instituições, universidades e startups convergem esforços e dialogam de forma contínua para a geração e o compartilhamento de conhecimento, formando uma cadeia em que cada elo contribui diretamente para fortalecer a resiliência e a evolução do segmento. Quando estratégia, cooperação e visão de longo prazo caminham juntas, o setor se torna mais preparado, mais robusto e mais competitivo.

A gestão de riscos não elimina as incertezas inerentes à atividade agropecuária, mas é um instrumento essencial para reduzir vulnerabilidades, fortalecer decisões e sustentar negócios ao longo do tempo. Em um mundo de extremos, será a convergência entre gestão, inovação e colaboração que permitirá ao agronegócio seguir cumprindo seu papel estratégico na segurança alimentar e no desenvolvimento econômico do Brasil e do mundo.

*Conteúdo patrocinado: este material pode não refletir, necessariamente, a posição ou opinião da PwC Brasil.

Alexandre Espinosa

Alfredo Lalia Neto é CEO da Sompo e conta com cerca de 30 anos de experiência nos mercados de seguros do Brasil e da América Latina. Já atuou como CEO, CRO e CUO em seguradoras nacionais e multinacionais, com ampla trajetória em gestão de riscos, estratégia, inovação e desenvolvimento de negócios.

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Dirceu Ferreira Junior

Dirceu Ferreira Junior

Sócio e Líder do PwC Agtech Innovation, PwC Brasil

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