O agronegócio brasileiro deu um salto relevante em maturidade digital: o Índice de Transformação Digital Brasil (ITDBr) do setor passou de 3,1 em 2024 para 3,6 em 2025, alcançando, pela primeira vez, a média geral de todas as indústrias. A digitalização chegou ao campo, mas o avanço é predominantemente operacional e a janela para transformar a eficiência em competitividade estratégica ainda está se fechando.
Esta é a segunda edição do ITDBr com foco exclusivo no agronegócio, fruto da parceria entre a PwC Brasil e a Fundação Dom Cabral (FDC). O estudo ouviu organizações do setor em diferentes faixas de faturamento e cargos de liderança para medir, com metodologia própria, o quanto cada empresa avançou em dez dimensões de maturidade digital – e o que ainda precisa evoluir.
Em duas dimensões, o setor supera a média das demais indústrias: infraestrutura (4,4, em comparação à média de 4,3) e estratégia (4,2, em comparação a 4,1). Esses resultados indicam que as bases técnicas e direcionais do setor estão consolidadas. Pessoas e cultura também se alinharam à média das demais indústrias, atingindo 3,7, um avanço consistente em relação ao ciclo anterior.
Esses pontos fortes revelam um setor que sabe aonde quer chegar e tem infraestrutura para suportar a jornada. O desafio está em transformar essa solidez operacional em um diferencial competitivo real.
P: O que a sua organização precisaria estruturar para impulsionar a transformação digital?
A principal lacuna está na dimensão de fronteira tecnológica, que registrou o índice de 1,8, uma queda expressiva de 1,4 ponto em relação ao ano anterior, e bem abaixo da média geral de 2,0. O dado sinaliza baixa adoção de tecnologias emergentes, como nanotecnologia e biotecnologia, que têm potencial transformador para a cadeia produtiva agrícola.
Inteligência artificial (3,4) e clientes digitais (2,9) também ficaram abaixo das demais indústrias (3,7 e 3,1, respectivamente). São justamente as dimensões mais associadas à capacidade de inovar e se relacionar de forma personalizada com o mercado, dois pilares da competitividade no longo prazo.
A forma como o setor investe em tecnologia revela muito sobre sua ambição estratégica. Hoje, 49% das empresas do agronegócio se classificam como otimizadoras – índice que supera a média geral de 33,5% e reflete o uso da tecnologia como alavanca de eficiência operacional e resultados de curto prazo.
Outros 43% adotam uma postura seletiva, investindo pontualmente. E apenas 8% das organizações se enquadram no perfil visionário – aquele que usa a transformação digital como base para novos modelos de negócio e para antecipar tendências disruptivas. A média das demais indústrias é de 16%.
O maior desafio declarado pelo setor é estruturar a digitalização como um processo organizado: 54% das empresas citam esse ponto, acima da média das demais indústrias. O problema é mais de governança do que de falta de tecnologia. As ações existem, o problema é a fragmentação.
A principal barreira é de cultura e estrutura organizacional, mencionada por 49% – o mesmo índice da média geral. A resistência interna à mudança pesa tanto quanto qualquer limitação técnica. Outros obstáculos relevantes são a pouca experiência em projetos digitais (26%) e as dúvidas sobre a rentabilidade dessas iniciativas (26%). A questão, na prática, é de execução e de capacidade de medir retorno.
O impacto que o setor mais percebe com a transformação digital é o aumento da eficiência operacional: 90% das empresas mencionam esse ganho. A seguir aparecem a melhoria no processo decisório, citada por 54%, e a mudança na cultura organizacional, apontada por 44%.
Novos modelos de negócio ainda são uma consequência menos frequente: apenas 21% das empresas relatam esse efeito. A digitalização está tornando o agronegócio mais produtivo – mas ainda não está reinventando seus modelos de operação e competição.
P: Qual impacto a transformação digital traz para a sua organização?
Em compliance e uso ético de dados, o agronegócio está acima da média: apenas 8% das organizações não têm nenhuma iniciativa implementada, índice inferior ao das demais indústrias. Conformidade legal e certificações (21%), políticas e normas internas (18%) e governança de liderança (15%) são os aspectos mais consolidados.
Na integração entre ESG e transformação digital, o setor também avança: análise avançada e IA (18%) e monitoramento e gestão ambiental (18%) lideram as soluções adotadas. Ferramentas de engajamento com a cadeia produtiva aparecem com 15%, mais que o dobro da média das indústrias.
A lacuna está na camada estrutural: plataformas de gestão de dados ESG e sistemas de governança, risco e conformidade (GRC) aparecem com apenas 5% cada. O agronegócio aplica a tecnologia na operação, mas ainda precisa centralizar e governar os dados para garantir uma gestão de sustentabilidade auditável e integrada.
“A transformação digital no agronegócio deixou de ser uma discussão sobre adoção de tecnologia e passou a ser uma pauta da liderança. O avanço depende menos das ferramentas disponíveis e mais da capacidade das organizações de estruturar processos, desenvolver pessoas e tomar decisões orientadas por dados. O agronegócio brasileiro está diante de um cenário que pede ação: evoluir de uma digitalização focada na eficiência para uma transformação verdadeiramente estratégica, capaz de reinventar modelos de negócio, ampliar a competitividade global e sustentar o crescimento no longo prazo.”
Os dados do ITDBr 2025 mostram um setor que alcançou o patamar médio das indústrias, mas também revelam que a próxima etapa é mais desafiadora. Fortalecer a governança, investir em inteligência artificial, explorar tecnologias emergentes e conectar dados à geração efetiva de valor são os movimentos que vão separar as organizações que apenas digitalizaram das que de fato se transformaram.