A criptoeconomia no Brasil permanece fortemente ancorada no setor financeiro, com 53% dos respondentes atuando como fornecedores ou empresas ligadas a serviços financeiros. Mesmo fora do universo bancário tradicional, muitos players operam em áreas estreitamente vinculadas ao sistema financeiro, o que revela a predominância de modelos de negócio dependentes dessa infraestrutura.
Essa concentração também se reflete no fato de que 63% das empresas não possuem qualquer licença bancária, um indicador de que a estrutura regulatória atual ainda não contempla plenamente as necessidades do setor e abre espaço para novas definições e ajustes regulatórios. Grande parte desses atores é composta por novos entrantes, agora diante de exigências crescentes de compliance, autorizações formais e possíveis registros como Virtual Asset Service Providers (VASPs).
O ecossistema mostra traços claros de maturação: 53% das empresas estão em fase de consolidação, enquanto 20% permanecem em expansão e outros 20% ainda operam em fases iniciais. O número de funcionários acompanha essa diversidade, com predominância de organizações de pequeno porte (37%) e presença expressiva de grandes empresas com mais de 500 colaboradores (27%).
No aspecto financeiro, o faturamento é distribuído de forma ampla: 30% movimentam entre R$ 0,5 e R$ 5 milhões, enquanto 27% ultrapassam R$ 200 milhões, revelando a convivência entre startups emergentes e players já estabelecidos.
As expectativas de crescimento são igualmente variadas – 57% projetam avanços entre 1% e 50%, 23% estimam crescimento de até 100% e 17% esperam resultados ainda maiores. O perfil de clientes reforça essa diversidade: metade das empresas atende o público corporativo, 7% focam em pessoas físicas e 43% atuam com ambos, o que sinaliza a multiplicidade de modelos e frentes em expansão na criptoeconomia nacional.
“A criptoeconomia é muito mais do que criptomoedas ou blockchain. É um novo olhar para os negócios, sob uma perspectiva descentralizada, inclusiva e democrática. O otimismo depositado no ecossistema é real, mas carrega a consciência de que ainda há muito a ser feito em relação à segurança, capacitação profissional e educação do consumidor. Se os desafios forem superados com responsabilidade, a criptoeconomia tem potencial para transformar o mercado financeiro e a forma como investimos.”
As criptomoedas sendo apontadas como a tecnologia de maior impacto para os negócios, figurando claramente em primeiro lugar entre as empresas da amostra (80%). Isso confirma seu papel como porta de entrada natural da criptoeconomia, já que as moedas digitais são a aplicação mais difundida, seja em operações de investimento, seja na intermediação de transações.
Os tokens são a segunda tecnologia de mais impacto, mencionados por 70% dos respondentes. Esse resultado indica uma diversificação do setor, que começa a explorar novos modelos de negócios baseados na tokenização.
O blockchain já deixou de ser uma promessa e passou a ocupar um espaço estratégico nas empresas. Há clareza sobre as oportunidades e a capacidade técnica necessária para explorá-las, mas o avanço efetivo depende da superação de desafios regulatórios e da formação de mão de obra qualificada.
O horizonte de consolidação é de médio prazo, com expectativa de que a tecnologia atinja escala significativa nos próximos cinco anos, alinhando inovação, segurança e sustentabilidade regulatória.
As empresas da amostra demonstram um nível de maturidade relevante no uso de blockchain e soluções DLT (tecnologias de registro distribuído). A maioria (83%) já apresenta alto ou profundo domínio técnico, com soluções implementadas ou em desenvolvimento, enquanto apenas uma pequena parcela (3%) não tem conhecimento sobre o tema.
“A tecnologia é uma ferramenta que agrega valor ao trabalho realizado em diversos aspectos do mercado de criptoeconomia, tanto na gestão de riscos quanto na geração de maior eficiência e aumento da capacidade operacional. Por isso, o tema da cibersegurança não pode mais sair da pauta. Ele acompanha o avanço do setor, assim como as práticas de prevenção à fraude. A regulamentação ajudará a organizar o mercado, definindo quem deve operar e como se deve operar, mas, sozinha, não elimina todos os riscos de segurança.”
O setor enxerga a regulação como um divisor de águas. A definição de regras claras é, ao mesmo tempo, o maior risco e a maior oportunidade. A ausência de diretrizes definitivas gera insegurança. Um marco regulatório sólido trará ganhos em segurança, solidez e competitividade internacional, mas isso exigirá investimentos consistentes em compliance, tributação, governança e tecnologia.
As empresas acompanham de perto as discussões regulatórias, conscientes de seu impacto direto nos negócios. As consultas públicas mais recentes – em especial a 110/2024, sobre a regulamentação dos serviços de ativos virtuais – concentram a atenção por serem consideradas as de maior relevância para a configuração do ambiente regulatório futuro.
Em 4 de novembro de 2025, o Banco Central do Brasil (BC) anunciou a interrupção da plataforma Drex, o projeto do real digital baseado em blockchain, após quatro anos de testes. A decisão confirmou as avaliações divergentes e a postura neutra de parte do mercado, que, desde a primeira fase do piloto, já apostava nos riscos da iniciativa.
O resultado da nossa pesquisa reafirma as principais barreiras já observadas no projeto, como: a complexidade da solução e dos requisitos técnicos, e a pouca clareza dos benefícios de cada caso de uso – o que limitava a percepção de valor imediato.
A criptoeconomia no Brasil vive um momento de transição: entre a promessa e a consolidação, entre a inovação e a regulação, entre os riscos e as oportunidades. Mais do que uma agenda de inovação, trata-se de uma agenda de institucionalização, em que a confiança, a segurança e a capacidade de gerar valor prático se tornam indispensáveis para a expansão sustentável da criptoeconomia no Brasil.