Por Orlando Cintra, Fundador e CEO do BR Angels
Nos últimos anos, o agronegócio brasileiro avançou na digitalização e ampliou o uso de dados ao longo da operação. Informações sobre clima, solo, máquinas, custos e logística tornaram‑se mais disponíveis e, em alguns casos, mais integradas. À medida que esse movimento se consolida, um ponto tende a ganhar mais peso: transformar informação em decisão no tempo adequado.
Esse ponto ganha relevância em um ambiente de margens mais pressionadas. Com a retração dos preços de soja e milho desde o pico de 2022, o impacto de decisões tomadas com atraso passou a ser mais perceptível nos resultados. Juros elevados encarecem o capital e aumentam o custo do erro, enquanto incertezas políticas e fiscais dificultam o planejamento de médio prazo.
Nesse contexto, o espaço para decisões baseadas exclusivamente em experiência ou análises pontuais se reduz. O desempenho passa a depender da capacidade de analisar múltiplas variáveis de forma combinada e ajustar escolhas ao longo do ciclo produtivo. É nessa relação entre volume de dados, tempo de resposta e gestão do risco que tecnologias de apoio à decisão ganham relevância.
A inteligência artificial se insere nesse espaço ao estruturar informações dispersas, identificar padrões recorrentes e apoiar decisões de forma contínua. Mais do que uma tecnologia isolada, a IA começa a atuar como elo entre dados operacionais e decisão econômica.
A adoção de inteligência artificial no agronegócio não segue um caminho linear. Ela avança onde há disponibilidade de dados, problemas bem definidos e potencial claro de retorno econômico, ainda que em ritmos diferentes ao longo da cadeia.
Hoje, a IA já se aplica a uma diversidade de frentes, como:
previsão de safra e análise geoespacial
automação de compliance ambiental
planejamento logístico
Mais do que novas aplicações, esse movimento sinaliza a incorporação da inteligência de dados em processos operacionais que antes dependiam, em grande parte, de observação direta ou análises pontuais. Alguns recortes ajudam a entender melhor como isso vem se materializando.
No crédito, modelos preditivos já combinam dados financeiros, histórico produtivo e variáveis climáticas para avaliar risco. Esse tipo de abordagem tem reduzido de forma relevante o tempo de análise. Startups como a Nagro, por exemplo, encurtaram o processo de concessão de crédito de meses para cerca de 48 horas. A Traive, por sua vez, utiliza IA para construir perfis de risco mais dinâmicos, ajustados a cenários de maior volatilidade.
Na produção, o avanço está especialmente na integração de fontes de dados. Sensores, imagens de satélite e algoritmos passam a operar de forma conjunta, permitindo acompanhar lavouras e rebanhos com maior frequência e precisão. Em alguns casos, tecnologias de visão computacional já conseguem estimar o peso de suínos sem contato físico, com níveis de precisão superiores a 95%.
O valor, nesse caso, não está apenas na coleta de dados, mas na capacidade de antecipar cenários — seja de produtividade, seja de questões fitossanitárias — e apoiar decisões com maior antecedência.
Na logística, a inteligência artificial começa a atuar sobre gargalos historicamente complexos do setor. A combinação de telemetria, integração de dados e análise preditiva permite otimizar rotas, reduzir consumo de combustível e aumentar a previsibilidade das operações. Empresas como a Cobli atuam diretamente nesse tipo de solução.
Já no comércio exterior, plataformas como a Logcomex aplicam inteligência de dados para ampliar a visibilidade sobre fluxos de carga. Em cadeias longas e fragmentadas, esse nível de transparência passa a ter impacto direto sobre eficiência e competitividade.
O avanço da IA no agro brasileiro acompanha um movimento mais amplo de maturidade tecnológica. O crescimento do ecossistema é um indicativo desse estágio. Segundo relatório da Value Capital Advisors, o número de startups de inteligência artificial no Brasil passou de 352 em 2016 e segue em expansão, refletindo o aumento da demanda por soluções baseadas em dados.
Esse avanço também se reflete na produção tecnológica. Dados do Observatório de Patentes e Tecnologia da Organização Europeia de Patentes (OEP) mostram que depósitos relacionados à agricultura digital crescem a uma taxa média anual de 9,4%, acima da média de outros setores, indicando maior foco em soluções com aplicação prática e potencial de escala.
Do lado das empresas, a direção é semelhante. Organizações do setor projetam direcionar entre 10% e 20% de seus orçamentos de tecnologia para iniciativas de inovação, segundo levantamento do IT Forum Inteligência. Nesse contexto, inteligência artificial e machine learning figuram entre as principais prioridades, ao lado de IA generativa e infraestrutura de dados.
Ainda assim, a adoção ocorre de forma desigual. Parte relevante do setor opera com baixa integração de dados, o que limita o potencial de aplicação da IA. Isso reforça que o valor da tecnologia está menos no algoritmo isolado e mais na capacidade de estruturar informações e conectá‑las aos processos decisórios.
A evolução recente das agtechs aponta para uma mudança no tipo de solução que ganha espaço no mercado. Relatórios de venture capital, como os da PitchBook, indicam maior interesse por startups que combinam automação, inteligência de dados e modelos de receita mais consistentes.
Soluções baseadas exclusivamente em hardware ou em insumos isolados passam a enfrentar maior pressão. Em paralelo, crescem plataformas digitais que integram coleta, processamento e recomendação. Esse movimento sugere uma transição mais estrutural: da tecnologia como apoio pontual para a tecnologia como base da tomada de decisão.
Na prática, o diferencial competitivo deixa de estar apenas no acesso à tecnologia e passa a estar na capacidade de transformar dados em decisões recorrentes, consistentes e com impacto econômico mensurável. Mais do que adotar IA, o desafio passa a ser incorporá‑la de forma integrada ao processo produtivo.
* Conteúdo patrocinado: este material pode não refletir, necessariamente, a posição ou opinião da PwC Brasil.
Orlando Cintra é fundador e CEO do BR Angels, uma das principais redes de executivos que apoiam startups no Brasil. Com mais de 20 anos de experiência em liderança e tecnologia, construiu uma sólida carreira em grandes empresas antes de se dedicar ao fortalecimento do ecossistema de inovação. À frente do BR Angels, atua conectando capital, conhecimento estratégico e networking qualificado para impulsionar o crescimento de startups de alto potencial.