Janeiro 13, 2026
Por Fernanda Cavalcante
O agronegócio brasileiro já não é mais avaliado somente pelo volume que produz, mas pela forma como produz. Conciliar produtividade, redução de emissões e rentabilidade em um país de dimensões continentais é uma questão estratégica para a competitividade global do Brasil.
É nesse contexto que a agricultura de baixo carbono ganha protagonismo, aproximando ciência, inovação, políticas públicas e capital. Esse foi o ponto de partida do 2º episódio da série Na Mesa com Stakeholders, promovido pelo PwC AgTech Innovation, que reuniu representantes do ecossistema de inovação do agronegócio para discutir caminhos concretos rumo a um modelo produtivo mais sustentável.
A relevância do tema é clara quando se analisam os números: cerca de 70% das emissões brasileiras estão associadas à mudança no uso da terra e à agropecuária, segundo o Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa. Desse total, aproximadamente 40% vêm da conversão da vegetação nativa, enquanto cerca de 30% decorrem diretamente das atividades produtivas no campo.
Ao mesmo tempo, o Brasil se destaca por adotar práticas inovadoras como ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), recuperação de pastagens degradadas e uso de plantas de cobertura, além de investir em tecnologias avançadas que permitem aumentar a produtividade com menos recursos.
Reside aí um paradoxo: o mesmo setor que emite carbono em níveis relevantes também tem grande potencial de sequestro.
Mas, como transformar esse potencial em vantagem competitiva?
Tropicalização da sustentabilidade - Paula Packer, Diretora da Embrapa Meio Ambiente, destaca que o Brasil está em pleno processo de “tropicalizar a sustentabilidade”. Ela afirma que essa agenda já se traduz em políticas públicas robustas, como o Plano ABC+, que integra mitigação e adaptação climática com metas claras para ampliar práticas sustentáveis no campo.
Paula observa que ciência, tecnologia e políticas públicas precisam avançar juntas. Ela explica que programas de recuperação de pastagens e o fortalecimento do MRV — medir, reportar e verificar — criam bases técnicas e institucionais para dar escala a modelos produtivos de baixo carbono, e reforça que sem métricas reconhecidas internacionalmente fica mais difícil dar visibilidade aos avanços reais que acontecem dentro da porteira.
A esse movimento se soma a inovação do setor privado. Para Marcos Petean, CEO da Gênica, as maiores oportunidades estão nos bioinsumos de bionutrição e na bioproteção, pois reduzem a dependência de fertilizantes e defensivos convencionais, aumentam eficiência e ajudam na adaptação das culturas às condições tropicais. Ele lembra que essas soluções já estão consolidadas em culturas como soja, milho e cana, onde a pressão de pragas e a variabilidade climática exigem respostas mais sofisticadas.
A visão do investidor reforça essa tendência. Francisco Jardim, sócio fundador da SP Ventures, observa que práticas de baixa emissão avançam porque combinam mitigação e adaptação, mas principalmente porque entregam resultado econômico imediato.
Ele afirma que “o produtor usa biológicos, plantas de cobertura e manejo regenerativo porque melhora produtividade e reduz custos. Não é discurso, é pragmatismo.” Para ele, sustentabilidade e retorno andam juntos quando o incentivo está claro.
Transformar inovação em prática cotidiana, de qualquer forma, é um desafio estrutural num país do tamanho do Brasil. A diversidade de solos, biomas e sistemas produtivos faz com que uma mesma solução gere resultados muito diferentes conforme a região. O que funciona bem no Sul pode não ter o mesmo desempenho no Cerrado. Essa necessidade permanente de adaptação ajuda a explicar por que o processo de validação tecnológica avança em ritmos tão distintos pelo país.
Essa heterogeneidade também se reflete nos perfis produtivos. “Grandes propriedades, com equipes técnicas especializadas e capacidade para testar soluções em escala, tendem a incorporar novas práticas mais rapidamente. Já pequenos e médios produtores enfrentam uma jornada mais lenta, pois dependem de redes locais de cooperativas, distribuidores e consultorias para interpretar e validar recomendações”, explica Paula. A assimetria de acesso à assistência técnica e a capacidade de validação geram velocidades desiguais de adoção, mesmo quando a tecnologia já está disponível.
O calendário agrícola adiciona outra camada de complexidade ao processo de inovação. Petean diz que, diferentemente de outros setores que conseguem testar tecnologias continuamente, o agro depende das janelas oferecidas pelas safras. “A cada ano, conseguimos testar novas soluções apenas durante o período de cultivo, que dura alguns meses e ocorre duas ou, no máximo, três vezes ao ano”, afirma. Essa dinâmica reduz o número de oportunidades reais de experimentação e, consequentemente, prolonga o tempo necessário para comprovar o desempenho de uma nova tecnologia antes que ela seja adotada em larga escala.
O ambiente regulatório também impõe limitações. Embora haja evidências de que práticas sustentáveis entregam retorno financeiro, o Brasil ainda carece de mecanismos estruturados para remunerar serviços ambientais. Sem instrumentos que conectem a adoção de práticas sustentáveis à captura direta de valor adicional, algumas regiões avançam mais devagar. Como observa Jardim, essa ausência reduz o incentivo econômico, mesmo quando os benefícios agronômicos já estão claros.
O avanço da agricultura de baixo carbono no Brasil dependerá da capacidade de aproximar ciência, tecnologia, políticas públicas e investimento de forma contínua. Para Francisco Jardim, esse movimento acontece em um contexto de transformações importantes que já influenciam o setor.
A primeira delas é a mudança climática, que pressiona produtores e empresas a adotarem práticas mais resilientes. A segunda é a reorganização geopolítica, que reforça o papel do Brasil como fornecedor estratégico de alimentos em mercados globais cada vez mais exigentes. A terceira é a evolução tecnológica, impulsionada por biotecnologia, digitalização e inteligência artificial, que acelera o desenvolvimento de soluções e torna a inovação mais acessível.
Esses fatores mostram que o futuro da agricultura de baixo carbono está em construção — e que sua consolidação dependerá da capacidade do país de integrar conhecimento, tecnologia e coordenação entre os diferentes atores do ecossistema.
Veja a íntegra do episódio de Na Mesa com Stakeholders – Agricultura de baixo carbono: ciência, capital e inovação a serviço do produtor
Aprofunde-se no tema com os principais insights compartilhados pelos participantes. Confira: